Manifestação
Em defesa da saúde da comunidade escolar
Carreata reuniu em torno de 70 veículos para protestar contra o retorno presencial das aulas em Pelotas
Jô Folha -
Aos gritos de “vacina, vacina” e com muitas buzinas, professores, funcionários e apoiadores da rede municipal de Educação realizaram no sábado uma carreata contra o retorno presencial das aulas neste momento de pandemia em Pelotas. Organizada pelo Sindicato dos Municipários (Simp), a manifestação teve início por volta das 15h, em frente ao Colégio Municipal Pelotense, e contou com aproximadamente 70 veículos. Além do posicionamento contra a retomada das atividades presenciais sem a vacinação dos profissionais da Educação, o movimento ainda pediu um diálogo maior da prefeitura com a classe, que alega não ter participado deste debate.
A Secretaria Municipal de Educação e Desporto (Smed) anunciou na última sexta-feira o retorno das aulas presenciais, em formato híbrido, para os alunos da Educação Infantil e dos 1º e 2º Anos da rede municipal. Na avaliação do Simp, este retorno é inviável enquanto não houver uma imunização ampla e completa dos profissionais da Educação. A categoria como um todo tem sentido na pele a não vacinação e enxerga uma retomada presencial como “muito arriscada neste momento”. A direção do sindicato entende que o retorno não é uma questão apenas dos profissionais ligados às escolas e comunidades, mas de toda a cidade. “É uma questão de acreditar nos números da prefeitura. Até este sábado, já são 795 pessoas na cidade que já nos deixaram. Amigos, vizinhos que perderam a vida para essa doença. É uma questão lógica perceber que a cidade não está preparada, estruturada e vacinada o suficiente para um retorno presencial. Enquanto não houver uma vacinação com as duas doses para os professores, não é possível voltar. Nós queremos que vacine primeiro e volte depois”, explica a presidente do Simp, Tatiane Rodrigues.
A sindicalista ainda pontua que a prefeitura não apresentou uma estrutura de trabalho adequada para os profissionais durante o período remoto e que faltam orientações para um eventual retorno presencial. “Em muitos casos, alunos e professores precisaram botar do seu bolso e procurar conseguir condições para o ensino remoto. Isso é responsabilidade da prefeitura, que não ofereceu. Muitos diretores e coordenadores questionam o que fazer se alguém tiver um caso positivo na sua escola. Não sabem como proceder. Não houve um debate com os colégios”, afirma.
Além do Simp, representantes da Associação dos Servidores da Universidade Federal de Pelotas (Asufpel) também estiveram presentes na manifestação. O servidor Barto de Farias destaca que, além do retorno presencial ser um “grande risco” neste momento, os equipamentos de proteção disponibilizados pela prefeitura são de qualidade ruim e colocam a vida da comunidade escolar em risco. ”Os EPIs são muito frágeis. Temos acompanhado os colegas e percebido que não estão protegidos. São entregues máscaras de tecido e outros equipamentos ruins que colocam os professores e alunos em perigo. Todos os dias tem morrido pessoas e aumentado os casos de contágios. Nós queremos que as aulas voltem, mas com todos protegidos”, pontuou Farias.
Pedidos por diálogo
A professora Martha Hirsch trabalha na rede municipal e relata que o seu sentimento é bastante parecido com o de outros colegas: angústia. Ela conta que os profissionais vivem uma situação dramática. “Enquanto a ciência adverte que a gente tem que esperar, os governos estadual e municipal pressionam para que as aulas recomecem. Sem vacina, é muito perigoso. É importante lembrar também que não há vacinas testadas para crianças e adolescentes, então é ainda mais perigoso”, aponta. Martha conta que estranha o fato de que quando a cidade estava classificada em bandeira laranja e vermelha - em situações menos graves, segundo o antigo modelo de Distanciamento Controlado e de enfrentamento à pandemia - não foi cogitado o retorno presencial das atividades, o que veio à tona em um contexto mais grave da Covid-19.
A professora ainda relata que a classe se sente pressionada e que falta diálogo por parte da Smed com a comunidade escolar. “A prefeitura precisa ouvir a comunidade. Em nenhum momento os professores foram chamados para tratar da volta às aulas. Não fomos convidados pra falar sobre isso, não houve debate com os trabalhadores da Educação. Recebemos ordens verticais e isso vai contra uma gestão escolar democrática. Falta esse diálogo, é muito complicado."
Itinerário
A jornada dos manifestantes teve concentração e ponto de partida em frente ao Colégio Municipal Pelotense. Após a saída da escola, os manifestantes se dirigiram até a rua Marechal Deodoro e partiram em direção à Marechal Floriano. De lá, foram até a Praça 20 de Setembro. O retorno iniciou na porção da praça localizada em frente ao Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) em direção à rua Professor Araújo. Após algumas horas de manifestação, a carreata terminou na rua Lobo da Costa, próxima ao paço municipal.
Contraponto
Através de uma nota, a Smed se pronunciou a respeito das manifestações. A Secretaria destacou que avalia constantemente o cenário da pandemia e que o município não poderá ficar indefinidamente sem aulas presenciais, pois especialistas apontam um enorme prejuízo às crianças, inclusive do ponto de vista médico. Ainda ressaltou que a data de início do ensino híbrido - no próximo dia 16 - foi sugestão das equipes escolares e que foi atendida pelo poder público municipal.
Sobre a falta de diálogo apontada pelos manifestantes, a Secretaria afirma ter realizado, desde o início de 2021, 179 reuniões de acompanhamento do ensino on-line. A nota explica que diretores, coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais e professores participaram destas reuniões, que tinham como finalidade a "organização, orientação, assessoramento, formação e acompanhamento das atividades de ensino não presencial". Em relação ao retorno presencial do mês que vem, a Secretaria informou que oito reuniões foram realizadas somente nesta última semana para orientar as medidas sanitárias de prevenção e monitoramento da Covid-19 nas escolas.
A respeito da qualidade dos EPIs fornecidos às escolas, a Smed afirma que eles respeitam as orientações do COE-E Municipal e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Matéria atualizada às 15h10 desde domingo (23) para acréscimo de informações
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário